O doce das abelhas vai muito além do mel. Esses insetos oferecem um serviço de valor inestimável: a polinização. Colocá-las sob ameaça é um tiro no pé. Por serem polinizadoras, as abelhas contribuem para a manutenção das florestas. Se elas forem extintas, a reprodução de plantas silvestres ficará comprometida, porque mais de 90% das espécies de vegetação tropical com flores e cerca de 78% das espécies de zonas temperadas dependem da polinização desses insetos.

A queda nas populações do inseto (Síndrome do Colapso das Abelhas), ocorre por fatores naturais e pela ação humana, por meio da destruição do ambiente das abelhas selvagens e do uso massivo de agrotóxicos e agroquímicos.

Os agrotóxicos são um dos grandes vilões desse desastre ecológico – desmatamento, poluição e mudanças climáticas também ameaçam as abelhas. O glifosato, por exemplo, que tem dado dor de cabeça à Monsanto devido a uma enxurrada de processos judiciais de pessoas contaminadas pelo herbicida, também pode afetar o comportamento das abelhas, alterando sua sensibilidade por açúcar e habilidade de navegação. Isso as atrapalha na hora de buscar alimentos e retornar para a colônia.

No mundo todo, pesquisas têm sido conduzidas com o objetivo de explicar as causas do fenômeno designado Colony Collapse Disorder – CCD (Síndrome do Colapso das Colônias), que afeta as abelhas. A Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, por meio da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA), realiza estudos na área de sanidade apícola, a fim de entender o problema desde 2006, quando a pesquisadora, Érica Weinstein Teixeira realizou pós-doutorado na United States Department of Agriculture (USDA). A APTA conta com o único laboratório especializado em sanidade apícola do País e realiza análises moleculares, dentre outras, para fins de pesquisa. Uma das linhas de pesquisa visa a identificação de patógenos e parasitas considerados também como possíveis responsáveis pela síndrome CCD.

Embora as causas da CCD ainda não estejam totalmente compreendidas, os esforços despendidos até o momento, principalmente nos EUA e na Europa, possibilitaram a geração de um volume considerável de informações sobre as possíveis ameaças bióticas e abióticas à saúde das abelhas. Importantes avanços científicos impulsionados, em especial, pelas ferramentas moleculares disponíveis, apontam para a impossibilidade de atribuir tais colapsos das colônias de abelhas melíferas a um único fator, exceto quando advindos de mortalidade aguda comprovadamente ocasionada por agrotóxicos.

Como o Brasil é reconhecidamente um grande consumidor mundial de agrotóxico e diante do conhecimento dos impactos negativos de muitas moléculas hoje utilizadas, cabem investigações e reflexões sobre as consequências de tais efeitos em longo prazo, não apenas em razão dos patógenos existentes e suas relações com o hospedeiro, mas também pelas relações destes compostos químicos com a microbiota natural do intestino das abelhas (reconhecidamente uma extensão do sistema imunológico), tanto na perspectiva individual como social (colônia). Perdura, ainda, a ausência na literatura de dados de avaliações de tais moléculas em campo ou semicampo, nas condições ambientais brasileiras, além de avaliações dos efeitos subletais em todas as fases de desenvolvimento das abelhas.

Enquanto não forem instituídas políticas públicas que visem contribuir com avaliações mais amplas da sanidade apícola, em território nacional, tanto por parte de órgãos regulamentadores de saúde animal, como por parte de agências de fomento à pesquisa, pouco se avançará nesta área do conhecimento.

A situação da espécie A. mellifera e a CCD – em particular – têm chamado a atenção do mundo, precisamos, no entanto, ter a clareza de que alguns dos fatores que podem causar a CCD poderiam ser os mesmos que estão causando o declínio das populações e extinção das abelhas em geral, como: a incidência de pragas, parasitas e patógenos; a exposição a agrotóxicos; e a destruição e fragmentação de habitats, com a consequente redução de áreas de nidificação e forrageamento. No Brasil, essa situação é preocupante. Cerca de um terço do território nacional já foi convertido para a produção agrícola, o que tem levado à perda de grandes áreas de vegetação natural. Porém, os possíveis impactos da fragmentação de habitats sobre as comunidades de abelhas, associados às práticas agrícolas, não têm sido devidamente avaliados.

FONTE: PIRES, Carmen Silvia Soares et al. Enfraquecimento e perda de colônias de abelhas no Brasil: há casos de CCD?. Pesquisa Agropecuária Brasileira, v. 51, n. 5, p. 422-442, 2016.

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