O Lobo-guará (Chrysocyon brachyurus) é um mamífero onívoro característico da região do Cerrado, que vem sendo muito prejudicado devido à perda de seu habitat. Com o aumento da agropecuária nas regiões centrais do Brasil, o lobo-guará, já é considerado um animal ameaçado de extinção.

 

 

Seu território diminuiu consideravelmente, nos últimos anos e, além disso, os atropelamentos e a falta de informação fazem com que o número de mortandade desses animais alcance níveis alarmantes. O estudo teve o objetivo de mostrar como o crescimento desordenado das áreas rurais pode influenciar diretamente a sobrevivência desse animal e o que a ausência dele pode acarretar na natureza.

Parente dos lobos selvagens e dos cachorros domésticos, o lobo-guará é um animal típico do Cerrado e maior canídeo da América do Sul, medindo aproximadamente 1,30m de comprimento e 90 centímetros de altura, pesando entre 20 e 30kg. Altivo e esguio, na natureza vive cerca de 20 anos. Geralmente, os filhotes nascem em estações secas, quando nascem, a fêmea não sai da toca e é alimentada pelo macho. Os filhotes nascem pretos, com a ponta da cauda branca, e a cada gestação, que dura pouco mais de dois meses, nascem de dois a quatro filhotes, não possuindo dimorfismo sexual em sua aparência. Após o nascimento é acompanhado pela mãe até o início da vida adulta, quando atingi essa fase possui pelagem de cor acobreada.

Apesar do porte imponente e da alcunha de “lobo”, é tímido e praticamente inofensivo, preferindo manter distância de populações humanas. Passa a maior parte da sua vida sozinho, procurando companhia somente em períodos de acasalamento. Por caminhar longos percursos, necessita de grandes áreas para caça, percorrendo até 102 km², porém, vem perdendo cada vez mais espaço devido ao aumento das áreas rurais.

Alimenta-se de pequenos animais, como roedores, tatus e aves, além de frutos variados, como a lobeira, que é o principal vegetal da sua dieta. Esses animais possuem hábitos noturnos ou crepusculares para realizarem as suas atividades. Normalmente um casal, monogâmico durante toda a sua vida, compartilham a mesma área, porém somente são vistos juntos nos períodos de reprodução. São animais territorialistas e costumam fazer marcações em locais específicos por defecação e/ou urina.

Segundo estudos realizados pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), o lobo-guará já é classificado como animal ameaçado de extinção com estado de conservação vulnerável. Isso porque, os estudos revelaram que existe uma grande possibilidade de extinção do animal em 100 anos. Entretanto, de acordo com a União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN, sigla em inglês), o animal se encontra na lista vermelha de animais quase ameaçados de extinção.

Com a expansão acelerada, e sem nenhum tipo de fiscalização, das áreas agrícolas durante anos e o crescimento das áreas urbanas, o lobo-guará vem perdendo cada vez mais seu espaço nativo. Segundo dados realizados pelo Instituto Nacional de Pesquisa Espacial (Inpe) e a Universidade Federal de Goiás (UFG), em algum momento entre 2011 e 2012, o Cerrado perdeu cerca de 7 mil Km².

Dada a crescente perda de território e o aumento das áreas urbanas, o lobo-guará vem enfrentando novas ameaças. A proximidade com o homem trouxe consigo uma convivência nada pacífica, gerando muito perigos para o animal. Entre eles, a perseguição por parte dos fazendeiros, os atropelamentos ocasionados pelo o aumento de números de estradas e pela falta de corredores ecológicos, e ainda, doenças transmitidas pelo eventual contato com animais domésticos.

A falta de conhecimento básico sobre o lobo-guará faz com que ele seja visto de forma negativa pelos fazendeiros, que por equívoco o enxergam como um animal ameaçador, por creditarem a ele as mortes de suas aves domésticas e criações. Algo que poderia ser atribuído à ação de outras espécies, como cobras, lagartos, gaviões, furões, cachorros-do-mato, gatos do mato, entre outros. No entanto, geralmente a culpa recai sobre o lobo-guará, que de perigoso não tem nada. Em virtude disso, o animal vem sofrendo uma grande represália, sendo caçado de maneira indiscriminada por fazendeiros armados e com auxílio de cachorros.

Em alguns estados como no Rio Grande do Sul (para onde migrava em certas ocasiões), o lobo-guará quase foi extinto por caçadores interessados em sua pelagem, por fazendeiros preocupados com suas criações, por expansão de áreas urbanas e rurais e até mesmo por crenças populares – uma delas diz- se que atrai sorte guardar o olho esquerdo de um guará, como amuleto, depois de arrancá-lo com o animal ainda vivo.

A forte atuação antrópica existente no Cerrado tem levado a uma baixa considerável no número de exemplares da espécie, ainda mais em pequenas populações. Uma vez que seu território se encontra fragmentado, o animal tem a necessidade de cruzar estradas e rodovias com elevado número de tráfego em busca de áreas com condições mais favoráveis a sua sobrevivência, o que leva a atropelamentos. Grande parte das vítimas são animais jovens a procura de áreas propícias para se instalar, ou indivíduos mais velhos sem a agilidade de outrora.

O alto número de atropelamentos ocorre principalmente nos estados de São Paulo, Minas Gerais e Goiás, incluindo ainda o Distrito Federal. Acredita-se que em certos casos, os atropelamentos não acontecem acidentalmente, em muitos locais, as pessoas apresentam aversão ao lobo, fazendo com que o mesmo seja um alvo a ser abatido quando, eventualmente, o encontro acontece em uma estrada. Especula-se que a razão da morte de um terço à metade da produção anual de filhotes sejam os atropelamentos, ressaltando a alarmante importância da criação de corredores ecológicos.

Outra questão que também deve ser levada em conta, mesmo que até então não se saiba muito a respeito de sua gravidade, é o risco de contração de doenças oriundas do contato com animais domésticos, em especial onde lobos e cães compartilham as mesmas áreas. O lobo-guará está suscetível a diversas doenças propagadas por cães, embora ainda não haja uma extensa avaliação, estima-se que possa ser significativo o impacto destas doenças. No Brasil foram realizados estudos revelando que animais em contato indireto com cães demonstraram indícios de várias doenças, tais como raiva, cinomose, parvovirose, leishmaniose, dentre outras. Algumas vezes o animal tem contato com o patógeno, mas a doença não se manifesta, devido às defesas do organismo, assim não desenvolvendo sintomas que prejudiquem a sua vida. O óbito de espécimes acometidos por cinomose e raiva, ou portadores de parvovirose poderiam comprometer populações anteriormente sadias da espécie. Todavia não se tem ao certo ideia do grau de sensibilização da espécie às doenças que se tem contraído.

As melhores maneiras para ajudar em sua sobrevivência, consideradas por ecólogos e biólogos, seriam a conscientização das pessoas, a educação ambiental para as crianças nas escolas e áreas de preservação. Como por exemplo, o Projeto da Serra da Canastra, que auxilia no monitoramento dos lobos desta região. O projeto é realizado pelo Instituto Pró-carnívoros e do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros (Cenap) do ICMBio, que trabalha com uma equipe especializada, que captura o lobo e através de uma coleira, chamada de rádio-colar, é feito o monitoramento do animal. No entanto, a fiscalização das áreas desmatadas é de extrema importância, tanto quanto a criação de políticas públicas direcionadas a conservação do bioma do Cerrado.

Em setembro de 2010, o governo anunciou a criação de uma estratégia para a conservação do Cerrado. O Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento e das Queimadas prevê 151 ações para diminuir a perda da cobertura vegetal e criar alternativas de proteção e uso sustentável dos recursos naturais. Os agricultores familiares terão assistência técnica e capacitação para acabar com o uso de queimadas para a produção.

Diante destas ações, é possível afirmar o dano causado a essa espécie durante os últimos anos, que devido a vários fatores, está desaparecendo da fauna brasileira. Embora seu habitat venha sendo severamente torturado pelo desmatamento e seu território fragmentado, o lobo-guará resiste lutando contra condições extremamente desfavoráveis pela sobrevivência.

Fonte: DE OLIVEIRA RAMOS, Dayane; DA SILVA, Diego Cruz; DE OLIVEIRA PASCARELLI, Bernardo Miguel. O PAPEL DA SUBSTITUIÇÃO DO CERRADO POR ÁREAS DE AGROPECUÁRIA E A EXTINÇÃO DO LOBO-GUARÁ. Semioses, v. 12, n. 2, p. 97-111, 2018. Disponível em: http://revistas.unisuam.edu.br/index.php/semioses/article/view/15

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